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meu sonho de medicina


História cadastrada em 08/03/2009
Um dia, pedi a Deus para presenciar um milagre. Meu pedido foi atendido, e o milagre ocorreu em minha vida.

Quando disse aos meus pais, amigos e professores que queria passar em Medicina — eu estudava o segundo ano do ensino médio, estávamos em 2006 — poucos achavam que eu iria conseguir. Ora, eu era um estudante de escola pública, jamais havia pisado em uma escola particular, e os vestibulares de medicina nas universidades federais do meu estado, a Paraíba, eram muito concorridos. A esmagadora parte dos alunos aprovados havia estudado toda a sua vida em colégios particulares, eu estava em desvantagem, mas resolvi seguir em frente. Comprei alguns livros, peguei outros emprestados, arregacei as mangas e comecei a estudar. Estudava em casa. Sentava-se em algum lugar e começava a ler os livros. Passei o ano todo assim. Estava me preparando para o processo seletivo seriado (PSS) da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) que era destinado para alunos que cursavam o 2º ano do ensino médio. Faria a prova que abordava os conteúdos dos 1º e 2º anos e, caso se classificasse, faria, no ano seguinte, somente a prova com os conteúdos do 3º.

Fiz a prova totalmente perdido, mas consegui uma pontuação excelente: 666, 23 pontos. Essa pontuação me deixava na briga para qualquer curso, exceto o de Medicina.

Não deixei me abalar e comecei a estudar novamente. Por não ter passado no PSS, eu teria que estudar todo o conteúdo do ensino médio. O vestibular seria divido em duas etapas: a primeira com provas com assuntos do 1º e 2º anos, e a segunda com assuntos do 3º. Estudei muito, muito mesmo. Devia dormir umas 5 horas por dia. Minha família me apoiava nas horas em que eu pensava em desistir. Abri mão de festas, de estar com os amigos e com a família. Perdi namoradas por causa de meus estudos — elas diziam que eu não dava a atenção que mereciam. No dia do resultado da primeira etapa do vestibular, a decepção: eu fora eliminado. Fiquei na posição 590. Eram cerca de 2500 candidatos, desses, 320 se classificavam para a segunda etapa. Um ano inteiro de estudo desmoronou sobre minha cabeça. Senti-me um inútil. Ficava a imaginar como deviam de ser inteligentes aqueles que passavam em Medicina.

Dias depois de ser eliminado na primeira etapa do vestibular de Medicina da UFCG, recebi o resultado de outro vestibular, o da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), que por não ter curso de Medicina, inscrevi-me para o vestibular do curso de Farmácia. Passei em 5º lugar — eram 70 vagas —, tendo conquistado uma excelente nota: 813 pontos. Meus pais queriam que eu fizesse Farmácia, mas eu não queria. Chegamos a discutir por causa disso, até que eles resolveram me apoiar. Eu iria tentar mais uma vez ser aprovado em Medicina. Teria mais tempo para estudar, já que havia me formado no ensino médio. Meus estudos em casa, sozinho, eram minha esperança, já que a formação recebida no colégio estadual o qual cursei o ensino médio não era suficiente para o que se precisava no vestibular de Medicina. Sabe, o vestibular de Medicina é muito desleal, os candidatos possuem níveis de conhecimento muito parecidos, e uma questão faz a diferença.

Foi quando aconteceu algo que viria a mudar tudo: conquistei uma medalha de prata na 3ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Participei da 3ª OBMEP quando cursava o 3º ano em minha escola. Fiquei em primeiro lugar na Paraíba no nível 3, destinado aos alunos do ensino médio. Já no Brasil, fiquei na posição 115 — os cem primeiros colocados conquistavam medalha de ouro, da posição 101 a 200 de prata. Foi uma grande conquista pessoal. Quando fui receber a medalha, em uma pequena solenidade no campus da UFCG, o coordenador da OBMEP na Paraíba perguntou se eu havia prestado vestibular na UFCG. Disse que sim, para Medicina, mas não tinha conseguido a aprovação. Ele então prometeu tentar conseguir para mim uma bolsa de estudos numa excelente escola particular de Campina Grande. Algumas semanas depois da premiação, fui comunicado de que eu havia ganhado a bolsa de estudos para um cursinho pré-vestibular.

Dediquei-me ao máximo nos estudos. Os professores me ensinaram assuntos que eu jamais havia conseguido aprender sozinho. Por morar em um pequeno município próximo a Campina Grande, eu acordava de cinco horas da manhã para não perder o ônibus da prefeitura, que levava os da minha cidade que estudavam ou trabalhavam em Campina. Tinha aulas de sete da manhã até as doze e vinte. Depois, ao invés de almoçar, eu fazia um lanche rápido — uma coxinha e um suco — pela rua, e regressava ao colégio para estudar na biblioteca. Ficava na escola até umas sete horas da noite. Então, eu pegava o ônibus da prefeitura que me trazia de volta para casa. Ao chegar em casa, lá por volta das oito da noite, eu jantava, tomava um banho e estudava até onze e meia. Passei um ano inteiro nessa rotina. Teve dias em que eu quis desistir, mas eu lembrava que meu pai, que é pedreiro, estava enfrentando um Sol escaldante para que eu pudesse estar estudando, para que eu pudesse estar lutando por meu sonho.

Mais uma vez, abneguei festas, amigos, família e namorada. Enfim, deixei de fazer coisas que jovens sempre fazem, para tentar a aprovação em Medicina. Quando fui fazer a primeira etapa do vestibular, eu estava tranquilo, porque havia dado o melhor de mim. Resultado: classifiquei-me em 29º lugar. Mas ainda faltava a segunda etapa, e eu não era muito bom nos assuntos do 3º ano. Mas tudo correu bem, acabei passando para Medicina na UFCG. Fiquei na posição 71 — eram noventa vagas. Tornei-me a primeira pessoa a conseguir passar em Medicina em meu município — e olha que ele foi emancipado em 1963.

Hoje, só tenho a agradecer por minha aprovação. Encontrei muita gente que me impulsionou para frente. Ninguém consegue realizar um sonho sem ajuda. Muitos já me procuraram, pedindo livros emprestados, ou até mesmo conselhos. Ajudo-os com muito prazer. Tenho orgulho de dizer: eu passei em Medicina. E este foi o milagre que Deus me fez presenciar: um jovem de 18 anos, residente em um município com cinco mil habitantes e tendo cursado os ensinos fundamental e médio em escola pública, conseguir passar em Medicina numa universidade federal.

Autor: [ Elvis Porto ]

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Última visita em 29 de Maro de 2020 às 10:04:26


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